Tema: ATENÇÃO BÁSICA
autor(a)
Ana Flávia de Abreu Galvão
Diabetes Mellitus (DM) é uma doença crônica com importante impacto de saúde pública em todos os países, independente do grau de desenvolvimento. Pertence ao grupo de distúrbios metabólicos caracterizado por hiperglicemia e também por interferência no metabolismo de carboidratos, gorduras e proteínas. Com a elevação do número de pessoas com DM aumentam-se também os custos com a manutenção da doença e das possíveis complicações macro e microvasculares causadas pelo descontrole glicêmico, tais como, retinopatia, neuropatia, nefropatia e outros Pacientes com esta comorbidade necessitam de monitoramento e acompanhamento médico regular para que possam atingir o controle glicêmico, prevenindo desta forma a evolução de complicações a longo prazo. Associado a hemoglobina glicada recomenda-se monitorar a glicemia de jejum e automonitoramento glicêmico. A partir destes parâmetros podem ser realizadas alterações na terapia, auxiliando o paciente a alcançar sua meta terapêutica. No Brasil o Conselho Federal de Farmácia, através das Resoluções 585 e 586 de 29 de agosto de 2013, regulamentou as atribuições clínicas do farmacêutico e a prescrição farmacêutica, visando a promoção, proteção, e recuperação da saúde, além da prevenção de doenças. O relato traz uma experiência de consulta compartilhada entre farmacêutica e médica, em uma unidade de saúde no município de Ponta Grossa, onde realizaram intervenções e manejo de uma paciente diabética com descontrole glicêmico em uso de insulina NPH.
OBJETIVO GERAL Melhorar o perfil glicêmico da paciente com descontrole glicêmico em uso de insulina NPH, prevenindo assim a evolução de complicações macro e microvasculares. OBJETIVO ESPECÍFICO Apresentar o desfecho do manejo, farmacológico e não farmacológico, do trabalho entre farmacêutica e médica para melhorar o perfil glicêmico da paciente diabética com descontrole glicêmico.
Trata-se de um relato de experiência, realizado em uma paciente diabética com descontrole glicêmico, em uma unidade de saúde da família no município de Ponta Grossa-PR. A referida unidade de saúde é composta por 3 equipes mínimas e conta com uma farmacêutica. A coleta de dados foi realizada após aprovação do presente relato ao Núcleo de Educação Permanente (NEP) de Ponta Grossa. Foram coletados dados do prontuário eletrônico do paciente (e-SUS) e dados do automonitoramento glicêmico pelo software disponibilizado pela Roche. A paciente foi acompanhada de abril a junho de 2022. As consultas e intervenções eram semanais e registradas em prontuário eletrônico. Foi estabelecido a esta paciente um alvo terapêutico de 130mg/dL em jejum pela manhã e menor que 180mg/dL pós prandial, conforme o preconizado pela Diretriz Brasileira de Diabetes. Os ajustes de insulina NPH foram realizados de acordo com o fluxograma de ajuste disponibilizado pela plataforma UpToDate. Para pacientes que os valores de média glicêmica estão abaixo de 200mg/dl, mas ainda não atingiram o alvo terapêutico, é indicado aumentar 2ui na dose correspondente, e para pacientes que valores de média glicêmica estão acima de 200mg/dL aumenta-se 4ui na dose correspondente. Assim, a paciente trazia o glicosímetro para a farmacêutica realizar o cálculo da média glicêmica e era realizada uma discussão de caso com a médica, no consultório médico, para a realização dos ajustes.
Paciente RP, 52 anos, feminino, portadora de DM , HAS e Miocardiopatia, em uso de entresto 49/51mg 1.0.1, metformina 850mg 1.1.1, gliclazida 30mg 1.0.1, insulina NPH 5ui.0.8ui, atorvastatina 40mg 0.0.1, carvedilol 6,25mg 2.0.2, AAS 100mg 0.1.0, espironolactona 25mg 1.0.0, digoxina 0,25mg ½.0.0, omeprazol 20mg 1.1.0, ex-tabagista, histórico de câncer de colo de útero e histerectomia em 2009, cirurgia de catarata 2008 e cateterismo em 2018 após cirurgia de safenectomia. Paciente é encaminhada pela médica para a farmacêutica e nutricionista para consulta e acompanhamento. Na primeira consulta farmacêutica a paciente foi orientada quanto ao armazenamento, transporte, preparo (higienização e homogeneização), aplicação da insulina (locais, rodízio e prega), descarte dos insumos, tipo e tempo de ação da insulina em uso e medidas não farmacológicas que também fazem parte do tratamento. As médias glicêmicas apresentadas nesta consulta estavam elevadas, sendo necessário aumento da dose de insulina, como apresentado na tabela 1. Foi identificado também que a paciente não tinha adesão correta ao tratamento, sendo orientada e disponibilizado um calendário posológico contendo todos os medicamentos e horários. Foram realizadas seis consultas, como pode ser observado na tabela 1, e a evolução das medidas glicêmicas pode ser observada nos gráficos 1, 2 e 3. A alta do acompanhamento semanal aconteceu quando a paciente atingiu a meta glicêmica estipulada.
As consultas compartilhadas entre farmacêutico e médico faz com que haja uma coordenação do cuidado, realizando um atendimento individualizado ao usuário e cada um, dentro do seu núcleo de atuação, avalia a situação e propõe manejo e plano de cuidado direcionado ao paciente. Neste caso relatado, a paciente estava com controle glicêmico totalmente descompensado em jejum 296mg/dL, 2h após o almoço 281mg/dL e 2h após jantar 343mg/dL, demonstrando uma inefetividade terapêutica e necessitando de ajuste na farmacoterapia. No entanto, também foi observado que a paciente não compreendia corretamente seu tratamento e por isso não tinha adesão correta, sendo realizado educação em saúde e orientação sobre suas comorbidades e medicamentos. Ao final do acompanhamento, com a consulta compartilhada, houve melhora no controle glicêmico, tendo um aumento de 43% nas medidas que correspondem ao alvo terapêutico. Passou de 47% dentro do intervalo alvo para 90% dentro do intervalo alvo. Com o exposto, conclui-se que o trabalho multiprofissional ao cuidado do paciente diabético contribui para melhor controle glicêmico e possível prevenção de complicações macro e microvasculares.